Ensaio

A língua da varanda

Hurston escreveu Seus Olhos Viam Deus em duas línguas. Em português, a tradução teve de inventar uma terceira, e a escolha divide quem estuda o livro.

Redação Galeitura21 de setembro de 20267 min de leitura

Este ensaio fala do livro inteiro, inclusive do capítulo 19 e da última página. Se você ainda não terminou, guarde-o para depois.

Duas línguas no mesmo livro

Seus Olhos Viam Deus é escrito em duas línguas, e a diferença aparece na primeira página. O narrador abre o livro falando de navios no horizonte e dos sonhos dos homens e das mulheres, num inglês literário, cheio de imagens. Poucas linhas depois, as vizinhas da varanda começam a falar, e a grafia muda: "dat" no lugar de "that", "wid" no lugar de "with", "lak" no lugar de "like". Hurston escreve as falas como elas soam, com as marcas do inglês dos negros do Sul dos Estados Unidos, e deixa a narração na norma. O guia de estudo americano SparkNotes chama isso de estilo dividido.

Achamos que essa divisão é a chave do livro, e não um enfeite regional. O romance conta a vida de uma mulher que passa boa parte do tempo proibida de falar. Joe Starks não a deixa discursar no dia em que vira prefeito, não a deixa sentar na varanda da loja, manda que ela esconda o cabelo num pano. O assunto do livro é quem tem direito à palavra, e Hurston o escreveu em duas vozes que disputam a página.

Por que o dialeto irritou

Em 1937, a escolha custou caro. Richard Wright escreveu na revista New Masses que os personagens de Hurston giravam na órbita estreita em que os Estados Unidos gostavam de ver o negro, entre o riso e as lágrimas. Alain Locke cobrou dela um romance de tese social. A própria editora brasileira resume o problema na apresentação do livro: outros autores negros acusavam Hurston de entregar aos brancos os estereótipos que eles esperavam. O dialeto, para esses leitores, soava como caricatura.

Hurston não imitava de ouvido. Tinha estudado antropologia no Barnard College, em Nova York, com Franz Boas, e passou anos recolhendo histórias, canções e crenças no Sul dos Estados Unidos; Mules and Men, de 1935, reúne folclore que ela registrou na Flórida. Para ela, aquela fala era material de pesquisa e era arte: o jeito de contar vantagem, de exagerar, de discutir a sério se é a natureza ou a cautela que tira a mão do fogão quente. No capítulo 6, as conversas sobre a mula de Matt Bonner tomam páginas inteiras. Não são um desvio do enredo. São Hurston mostrando o que aprendeu a escutar.

O romance caiu no esquecimento e só voltou depois que Alice Walker publicou, em 1975, na revista Ms., o relato de sua busca pelo túmulo sem nome da autora, em Fort Pierce, na Flórida. Walker mandou pôr ali uma lápide que chama Hurston de gênio do Sul. O ano de nascimento gravado na pedra, 1901, é o que Hurston inventou aos 26 anos para poder voltar à escola. Até na pedra ficou a versão que ela escolheu contar.

O assunto do livro é quem tem direito à palavra.

Quem fala no fim

A narração também não fica parada. Nas cenas importantes, a voz do narrador e a de Janie se misturam: a frase está em terceira pessoa, mas o pensamento, e às vezes o jeito de dizer, é dela. É o que se chama de discurso indireto livre, e a exclamação de Janie debaixo da pereira, no capítulo 2, quando ela conclui que aquilo é um casamento, é o primeiro exemplo forte. Aos poucos, a língua do livro vai sendo tomada pela da personagem.

Por isso o capítulo 19 é tão discutido. No julgamento, com a vida em jogo, Janie depõe, e o narrador não mostra a fala dela: resume de fora o que ela disse. No livro sobre uma mulher que aprende a falar, a cena em que a palavra decide tudo fica sem a voz dela. Parte da crítica leu isso como fracasso, como se Janie não tivesse chegado aonde queria. Outra parte, com Alice Walker, leu como domínio: Janie já não precisa provar nada a um tribunal. A crítica Mary Helen Washington, que assina o prefácio da edição brasileira de 2021, é uma das que registraram essa discussão.

Nós ficamos com uma terceira leitura, mais simples. O depoimento que importa não é o do tribunal. É o livro inteiro: a história contada a Pheoby, nos fundos de casa, na língua de Eatonville. No capítulo 20, Janie diz à amiga que cada um precisa ir até lá para saber como é, e autoriza Pheoby a contar tudo às vizinhas. A voz que falta no tribunal está em todas as outras páginas.

E em português?

Aqui entra o problema do leitor brasileiro. O Brasil não tem um equivalente exato do inglês dos negros do Sul dos Estados Unidos, e a pesquisadora Maria Aparecida Salgueiro, da UERJ, lembra que a fala dos negros brasileiros muda de região para região. A edição da Record, com tradução de Marcos Santarrita, lançada em 2002, escolheu passar os diálogos para um português coloquial, fora da norma. Um trecho do capítulo 20 da edição de 2021, citado num artigo acadêmico de 2025, mostra o método: "num" no lugar de "não", "cê" no lugar de "você", plurais sem concordância.

O título já mostra o tamanho do problema. Em inglês, "their" é plural: são os olhos de todos os que esperam o furacão no escuro, no capítulo 18. Em português, "seus" pode ser os olhos de uma pessoa ou de várias, e Bortoni-Ricardo observa que o título brasileiro ficou ambíguo. Não é defeito. É o preço de qualquer escolha, e o leitor brasileiro ganha uma pergunta que o americano não tinha.

Os nomes contam a mesma história. No original, a avó de Janie se chama Nanny, palavra que em inglês também quer dizer babá, e é esse o trabalho dela na casa dos Washburn. A tradução a chamou de Babá, e o duplo sentido sobreviveu: a mulher que cria Janie é conhecida pelo serviço que presta aos brancos. Já Tea Cake ficou em inglês, e o leitor brasileiro perde a piada do bolinho doce, que Janie faz no capítulo 10 quando ouve o apelido.

A escolha divide quem estuda o livro. Num artigo de 2014 na revista Cadernos de Tradução, Salgueiro contou a própria frustração: para ela, o resultado soa apenas como português incorreto, carrega as ideias de raça do tradutor e perde a perspectiva literária de Hurston. A sociolinguista Stella Maris Bortoni-Ricardo, professora emérita da UnB, que passou a carreira estudando o português de quem não aprendeu em casa a variedade de prestígio e deu a um de seus livros o título Nós cheguemu na escola, e agora?, leu a segunda edição, de 2021, com a tradução revista pelo antropólogo Messias Basques. Achou que os tradutores fizeram um bom trabalho numa tarefa muito difícil.

As duas têm razão em parte, e o que separa as duas leituras é o que o leitor faz com o que lê. Um plural sem concordância não é erro de revisão: é um traço do português que muitos brasileiros falam, com regras próprias, estudado há décadas por sociolinguistas como a própria Bortoni-Ricardo, do mesmo jeito que a fala de Eatonville tinha regras para Hurston. O risco apontado por Salgueiro existe quando o leitor lê a fala como erro e ri dela. O acerto visto por Bortoni-Ricardo aparece quando o leitor escuta.

Leia em voz alta

Por isso o conselho que damos no guia do capítulo 1 não é enfeite: leia os diálogos em voz alta, pelo menos no começo. No papel, "num" e "cê" parecem descuido; no ouvido, são uma pessoa falando. É a mesma operação que Hurston pediu aos leitores de 1937, que tropeçavam em "dat" e "wid". Quem faz isso descobre que o livro não tem uma língua certa e uma errada. Tem duas maneiras de contar a mesma vida, e no fim quem conta é Janie.

Fontes

  1. Wikipédia (inglês), Their Eyes Were Watching God: publicação, a recepção de 1937, a volta nos anos 1970, conferida em 21 de setembro de 2026
  2. Wikipédia (inglês), Zora Neale Hurston: Barnard, Boas, Mules and Men, o túmulo e a lápide, conferida em 21 de setembro de 2026
  3. SparkNotes, capítulos 1 e 2: o estilo dividido entre o narrador e o dialeto, conferida em 21 de setembro de 2026
  4. SparkNotes, capítulo 19: o depoimento contado de fora e o debate da crítica, conferida em 21 de setembro de 2026
  5. Livraria da Travessa, Seus olhos viam Deus (Record, 2021): tradutor e apresentação da editora, conferida em 21 de setembro de 2026
  6. Maria Aparecida Andrade Salgueiro, Traduzindo literatura da diáspora africana, Cadernos de Tradução (UFSC), 2014, conferida em 21 de setembro de 2026
  7. Stella Maris Bortoni-Ricardo, Seus olhos viam Deus, no blog da autora (28 de fevereiro de 2022), conferida em 21 de setembro de 2026
  8. SciELO, Linguagem em (Dis)curso, entrevista com Stella Maris Bortoni-Ricardo: a sociolinguística educacional, conferida em 21 de setembro de 2026
  9. Parábola Editorial, Nós cheguemu na escola, e agora?: a autora e o livro, conferida em 21 de setembro de 2026
  10. Livia Coelho Netto Affonso, revista Ñanduty (UFGD), 2025: a revisão de Messias Basques, o prefácio e um trecho da edição de 2021, conferida em 21 de setembro de 2026