Ensaio

Meninos de uniforme

Senhor das Moscas é ensinado como prova de que, sem regras, viramos bichos. O livro desconfia da lição que a escola tira dele.

Redação Galeitura21 de setembro de 20267 min de leitura

Este ensaio fala do livro inteiro, até a última página. Se você ainda não chegou ao capítulo 12, guarde-o para depois.

A lição de sempre

Quem leu Senhor das Moscas na escola provavelmente saiu com uma tabela. Ralph é a democracia, Jack a ditadura, Porquinho a ciência, Simon a fé, e a ilha prova que, tirando pais, professores e polícia, o ser humano volta a ser bicho. A leitura tem aval do autor. Numa palestra na Universidade da Califórnia, em 1962, depois publicada no livro de ensaios The Hot Gates, Golding disse que a civilização dos meninos desmorona por causa de uma doença que todos eles carregam: a de serem humanos.

Achamos que o romance é mais interessante do que a tabela, e mais desconfiado do que o próprio autor na palestra. Relido por adulto, ele deixa pistas de que não fala da natureza humana em geral. Fala de um tipo muito preciso de menino, criado num tipo muito preciso de escola, no meio de uma guerra de adultos.

Eles chegam de uniforme

A primeira cena de grupo do livro não é selvagem. É uma fila. No capítulo 1, o coro desce a praia marchando em duas colunas, de capa preta, atrás de Jack Merridew, que reivindica a chefia porque já manda no coro na escola. Os caçadores de Jack não nascem na ilha: são um coro escolar que troca de função. E Ralph, eleito, compra a paz dando o coro a Jack. A hierarquia desce do avião pronta.

No capítulo 2, quem mais gosta de regras é Jack. Quer muitas, para poder punir quem as quebrar, e é dele a frase de que eles não são selvagens, são ingleses, e os ingleses são os melhores em tudo. A frase é do personagem, não do narrador, e o romance inteiro trabalha contra ela. Quem vira selvagem na ilha não é quem vivia sem regra. É o menino que mais gostava delas, e o grupo que chegou mais organizado.

Quem vira selvagem na ilha é o menino que mais gostava de regras.

O gordo de óculos

Na tabela escolar, Porquinho não é gente, é a razão. O livro dá a ele uma biografia precisa. O pai morreu, ele mora com uma tia que tem uma loja de doces, tem asma e mal consegue correr. No original, fala com o sotaque e os erros de gramática de quem não veio das mesmas escolas que os outros, a começar pelo nome da própria doença, que ele pronuncia errado, e isso vira motivo de riso. A zombaria começa no capítulo 1, pela boca de Ralph, que conta a todos o apelido que Porquinho pediu para guardar.

Lido assim, o que a ilha faz com Porquinho não é só a barbárie contra a inteligência. É o pátio da escola sem inspetor: o menino que fala diferente, que não corre, que não enxerga sem os óculos, é o primeiro a apanhar e o último a ser ouvido. Golding dava aula numa escola de meninos em Salisbury quando escreveu o livro, e continuou dando por anos depois. Ele conhecia esse pátio.

A guerra lá em cima

A ilha também não está fora do mundo. O avião levava os meninos para longe de uma guerra, e Porquinho conta no capítulo 1 que houve uma bomba atômica. No fim do capítulo 5, Ralph deseja que os adultos mandem um sinal. No começo do 6, o sinal cai do céu: uma batalha aérea acontece enquanto os meninos dormem, e um paraquedista morto pousa no alto do morro. É esse cadáver que eles vão chamar de monstro. O monstro que os meninos veem com os próprios olhos, nos capítulos 6 e 7, é um adulto morto numa guerra de adultos.

Depois vem o resgate. No capítulo 12, o oficial da Marinha que aparece na praia chegou por causa da fumaça do incêndio posto na mata para caçar Ralph. O fogo que salva não é a fogueira de sinal que Ralph passou o livro pedindo; é o fogo da caçada. E o oficial, depois de dizer que esperava mais de meninos britânicos, desvia os olhos para o navio de guerra parado ao longe. O adulto que encerra a caçada na ilha vai voltar para a outra.

Na mesma palestra de 1962, Golding explicou de onde vinha o livro. Pensava nas atrocidades da guerra e fazia questão de dizer quem as cometeu: gente instruída, médicos, advogados, herdeiros de uma civilização, contra gente como eles. E concluiu que quem atravessou aqueles anos sem entender que "o homem produz o mal como a abelha produz mel" era cego ou tinha a cabeça errada. Repare em quem ele põe na cena: gente de diploma, não selvagens. A lição escolar costuma guardar a abelha e esquecer os advogados.

A resposta a outro livro

Golding escreveu contra um livro específico. The Coral Island, de R. M. Ballantyne, de 1857, conta três meninos britânicos, Ralph, Jack e Peterkin, que naufragam numa ilha dos mares do Sul, vivem bem, enfrentam piratas e nativos descritos como canibais e ajudam missionários a converter um chefe. Era um manual de como um menino britânico devia se portar longe de casa, e de por que o mundo seria dele. Golding pegou os nomes Ralph e Jack e trocou de lugar quem é o selvagem.

O próprio romance assina a resposta, duas vezes. No capítulo 2, quando alguém diz que aquilo parece coisa de livro, os meninos gritam títulos de romances de aventura, e The Coral Island está entre eles. No capítulo 12, o oficial diz que imagina que tenha sido como lá. Achamos que, para um leitor inglês de 1954, a referência dispensava nota. A tese do livro, lida desse ângulo, é menos que o ser humano é mau e mais que a história que a Inglaterra contava sobre os próprios meninos era falsa.

Seis meninos de verdade

Em maio de 2020, o historiador holandês Rutger Bregman publicou no Guardian, num trecho do livro Humankind, a história de seis meninos de Tonga que em junho de 1965 fugiram do internato num barco tomado sem permissão e ficaram quinze meses na ilha deserta de 'Ata. Dividiram o trabalho em duplas, com escala para a horta, a cozinha e a vigia, resolviam as brigas com uma pausa e mantiveram o fogo aceso por mais de um ano. Foram resgatados em 11 de setembro de 1966 por um pescador australiano, Peter Warner.

A história circulou como o verdadeiro Senhor das Moscas, uma refutação do romance. A escritora Meleika Gesa, num texto para o site neozelandês The Spinoff, fez uma objeção que vale para os dois lados: a versão que viralizou apagou o que os meninos tinham de tonganeses, os valores de partilha e de sobrevivência em grupo que aprenderam em casa. Dito de outro jeito, e aqui a conclusão é nossa: o que manteve o fogo aceso em 'Ata não foi a natureza humana. Foi uma cultura.

É exatamente o nosso ponto. Os meninos de Golding também chegam à ilha com uma cultura, e o romance mostra o que ela faz sem inspetor por perto: a fila, o coro, o apelido, a certeza de ser o melhor em tudo. Nenhuma das duas ilhas prova o que é a natureza humana. As duas mostram que ninguém desembarca sem bagagem.

Quem vai ver

Sobra Simon, que a tabela chama de fé e que se parece mais com um leitor. No capítulo 5, ele sugere na assembleia que o monstro talvez sejam eles mesmos, e a ideia é descartada. No 9, é o único que sobe o morro para ver com os próprios olhos o que é o monstro, entende que é um homem morto e desce para contar. Morre no meio da dança, antes de ser ouvido. O livro não diz só que os meninos são maus. Diz uma coisa mais precisa e mais incômoda: que um grupo com medo mata quem chega com o fato.

Na escola, aos catorze anos, o romance parece falar dos outros, dos selvagens que a gente não seria. Relido depois, ele fala da fila, da votação, do apelido que alguém contou para a turma rir. E, na última página, de um adulto de uniforme que olha para os meninos chorando e prefere olhar para o navio.

Fontes

  1. WIST Quotations, a palestra de Golding na UCLA em 1962, reproduzida em The Hot Gates (1965), conferida em 21 de setembro de 2026
  2. The Irish Times, Brian Maye, sobre a palestra de 1962 e a doença de ser humano, conferida em 21 de setembro de 2026
  3. Wikipédia (inglês), Lord of the Flies, conferida em 21 de setembro de 2026
  4. Wikipédia (inglês), The Coral Island, conferida em 21 de setembro de 2026
  5. Wikipédia (inglês), William Golding, conferida em 21 de setembro de 2026
  6. Collins Revision (HarperCollins), guia de Lord of the Flies: a classe e a fala de Porquinho, conferida em 21 de setembro de 2026
  7. SparkNotes, alusões em Lord of the Flies: os romances de aventura do capítulo 2, conferida em 21 de setembro de 2026
  8. The Guardian, Rutger Bregman, The real Lord of the Flies (9 de maio de 2020), conferida em 21 de setembro de 2026
  9. Wikipédia (inglês), Tongan castaways, conferida em 21 de setembro de 2026
  10. The Spinoff, Meleika Gesa, sobre os meninos de 'Ata e o que a versão viral deixou de fora, conferida em 21 de setembro de 2026