Ensaio

A Rússia de Ivan Ilitch

Postos, classes e rublos: o que um leitor russo de 1886 entendia na primeira página e nós deixamos passar.

Redação Galeitura21 de setembro de 20268 min de leitura

O anúncio fúnebre que abre o livro diz tudo o que um leitor russo precisava saber: Ivan Ilitch Golovin, membro da Câmara Judicial, morreu em 4 de fevereiro de 1882. Para nós, o cargo é uma expressão comprida. Para quem lia em 1886, era um degrau preciso numa escada que todo mundo conhecia de cor. Este ensaio sobe essa escada com ele. Fica nos capítulos 1 a 3 e não conta nada do que acontece depois; a única exceção é um detalhe de cenário do capítulo 8.

Uma escada de catorze degraus

Em 1722, Pedro, o Grande, criou a Tabela de Patentes: catorze classes para o exército, o serviço civil e a corte, pelas quais todo funcionário subia, pelo menos em tese, pelo serviço e não pelo berço. A classe dava nobreza. No serviço civil, a partir de 1856, quem chegava à quarta classe ganhava nobreza hereditária, que passava aos filhos. A Tabela durou até novembro de 1917.

O pai de Ivan Ilitch está perto do topo. Iliá Efímovitch é conselheiro privado, a terceira classe, tratado por Vossa Excelência. O narrador o descreve como membro inútil de instituições inúteis: desses funcionários que já não servem para nada, mas que o posto impede de demitir, e que por isso recebem cargos fictícios e milhares nada fictícios, de seis a dez por ano. É a primeira piada do capítulo 2, e ela informa o leitor de onde o filho vem e até onde se espera que ele suba.

Na primeira página, a morte de um homem é a promoção de outros três.

Por isso a primeira reação dos colegas, no capítulo 1, é fazer contas. Se Ivan Ilitch morreu, Alexéiev pode ficar com o lugar dele, e o de Alexéiev vai para Vínnikov ou para Stabel. Fiódor Vassílievitch calcula que a vaga lhe renderia oitocentos rublos a mais por ano. Piotr Ivánovitch pensa em transferir o cunhado de Kaluga. Numa escada assim, a promoção não é um assunto do livro. É o motor dele.

A escola do príncipe

Ivan Ilitch estuda na Escola Imperial de Jurisprudência, em São Petersburgo, fundada em 1835 por iniciativa do príncipe Pedro de Oldemburgo, sobrinho do tsar, para formar funcionários que soubessem aplicar as leis. O curso levava sete anos, e o formado devia seis anos de serviço às instituições do Ministério da Justiça. Os melhores saíam já com a nona ou a décima classe. Tolstói não estudou ali: entrou na Universidade de Kazan em 1844 para línguas orientais e, com notas ruins, passou para a faculdade de Direito, que era menos exigente.

O capítulo 2 diz que Ivan Ilitch sai da escola com a décima classe, a de secretário colegial. Em outras palavras, formou-se entre os bons. Antes de partir, manda fazer roupa no alfaiate da moda, pendura no relógio a medalha do respice finem, despede-se do príncipe e do preceptor e janta com os colegas no Donon. O príncipe é o da escola. O primeiro emprego, funcionário para missões especiais do governador numa província, quem arranja é o pai.

Juiz de instrução, uma profissão nova

Cinco anos depois, diz o livro, surgem instituições judiciais novas, e elas precisam de gente nova. É a reforma judicial de Alexandre II, cujos estatutos o tsar assinou em 20 de novembro de 1864. Ela separou os tribunais da administração, abriu os julgamentos ao público, criou o júri e a advocacia e pôs acusação e defesa em pé de igualdade diante do juiz.

Antes disso, investigar um crime era trabalho da polícia. Uma lei de 1860 criou os juízes de instrução, e os estatutos de 1864 os prenderam aos tribunais de comarca, com os direitos de membro do tribunal: faziam pessoalmente cada ato da investigação, com a polícia de auxiliar e a procuradoria de fiscal. É esse o cargo que Ivan Ilitch aceita, e o livro faz questão de dizer que ele foi um dos primeiros a pôr os estatutos de 1864 em prática.

O capítulo 2 mostra o que o cargo lhe dá, e não é dinheiro. É saber que basta escrever certas palavras num papel timbrado para que qualquer homem importante seja trazido à sua mesa, como acusado ou testemunha, e responda de pé. Poucos anos antes, esse poder era de um policial. Ivan Ilitch o exerce com moderação e gosta sobretudo de saber que poderia não exercer. Deixa a barba crescer e adota um liberalismo comedido, o tom certo para um homem das instituições novas.

Três anos depois, vira ajudante do procurador. Com a reforma, a acusação passou a ser feita em audiência pública, e daí os discursos, que o livro cita entre as novas alegrias do cargo, ao lado do poder de levar qualquer um a julgamento e à prisão. Sete anos depois, é procurador em outra província.

Por que a província pesa

Cada promoção é uma mudança de cidade. Funcionário do governador numa província, juiz de instrução em outra, procurador numa terceira. Em 1880, com dezessete anos de casamento, Ivan Ilitch espera a presidência de um tribunal numa cidade universitária, e um certo Goppe fica com o posto. Ele reclama, briga com os superiores e é preterido de novo. Para o livro, é o pior ano da vida dele.

A saída não está na província. Está em São Petersburgo, onde se distribuem os cargos, e o capítulo 3 dá uma aula de como isso funciona. Num vagão de primeira classe, um conhecido conta que o governador de Kursk recebeu um telegrama: vai haver uma troca no ministério. A troca derruba um nome e levanta outro, o novo tem um amigo, e o amigo é colega de Ivan Ilitch. Uma semana depois, ele telegrafa à mulher que vai ser nomeado, e o posto o põe dois degraus acima dos antigos colegas. O mérito conta, mas passa por essa corrente de conhecidos. O livro, aliás, nunca diz o nome da cidade para onde a família vai.

Os números do capítulo 3

Em 1880, Ivan Ilitch ganha 3.500 rublos por ano, e o que mais o ofende é que todo mundo acha esse salário normal, até feliz. A família vive acima do que ganha, e ele faz dívidas. Vai a São Petersburgo atrás de um número, não de um cargo: qualquer posto de cinco mil, num ministério, num banco, nas ferrovias, nas instituições da imperatriz Maria, até na alfândega. Consegue cinco mil por ano e mais três mil e quinhentos de ajuda de mudança, o salário anual inteiro de antes.

O livro dá outros preços, e as contas com eles dizem muito. Cinco mil por ano são pouco mais de quatrocentos rublos por mês. A conta do confeiteiro que provoca uma das piores brigas do casal, no capítulo 3, é de 45 rublos, mais de um décimo de um mês de salário. No capítulo 1, o terreno no cemitério custa duzentos, meio mês. E a promoção que Fiódor Vassílievitch calcula ao ler o anúncio fúnebre vale oitocentos rublos a mais por ano: quatro vezes o preço da cova, todo ano, pago pela morte de um colega.

Depois da mudança, diz o narrador, faltava só um pouquinho, uns quinhentos rublos, como sempre. A renda sobe e a falta sobe junto, porque a medida é o apartamento dos outros.

Um livro com data

O capítulo 1 dá o dia da morte, 4 de fevereiro de 1882; o 2 dá a idade, 45 anos. A conta é nossa: Ivan Ilitch nasceu em 1836 ou 1837 e tinha perto de trinta anos quando os estatutos de 1864 abriram a profissão que o fez. É, ao pé da letra, um homem da reforma.

Tolstói partiu de um caso real. As notas da edição de 1984 das obras dele, reproduzidas no Wikisource, contam que a novela se inspira em Ivan Ilitch Mêtchnikov, procurador do tribunal de comarca de Tula, morto em 2 de julho de 1881, e que Tatiana Kuzmínskaia repassou a Tolstói o que a viúva contava dos últimos pensamentos do marido sobre uma vida sem proveito. O irmão do morto, o cientista Iliá Mêtchnikov, deixou escrito que ele morreu aos 45 anos.

Até o teatro tem data. No capítulo 8, a família tem camarote para ver Sarah Bernhardt, e o noivo da filha conta que a viu em Adrienne Lecouvreur. A atriz francesa passou de fato por Moscou e São Petersburgo na turnê europeia que fez depois de maio de 1881, e a peça estava no repertório dela. A família inventada vai a uma temporada de verdade.

Dois colegas de escola

A Escola de Jurisprudência formou, entre muitos outros, o crítico Vladímir Stássov e o compositor Piotr Tchaikóvski. Os dois leram a novela no ano em que ela saiu. Stássov escreveu a Tolstói, em 25 de abril de 1886, que nenhum povo tinha uma criação como aquela. Tchaikóvski anotou no diário, em 12 de julho, que nunca estivera tão convencido de que Tolstói era o maior de todos os escritores. Leram a vida de um colega de escola que nunca existiu.

Fontes

  1. Wikisource (russo), o texto original e as notas da edição de 1984, conferida em 21 de setembro de 2026
  2. Wikipédia (inglês), Table of Ranks, conferida em 21 de setembro de 2026
  3. Wikipédia (inglês), Privy Councillor (Russia), conferida em 21 de setembro de 2026
  4. Wikipédia (russo), secretário colegial, conferida em 21 de setembro de 2026
  5. Wikipédia (russo), Escola Imperial de Jurisprudência, conferida em 21 de setembro de 2026
  6. Wikipédia (inglês), Imperial School of Jurisprudence, conferida em 21 de setembro de 2026
  7. Wikipédia (inglês), Judicial reform of Alexander II, conferida em 21 de setembro de 2026
  8. Wikipédia (russo), o juiz de instrução no Império Russo, conferida em 21 de setembro de 2026
  9. Wikipédia (inglês), Sarah Bernhardt, conferida em 21 de setembro de 2026
  10. Encyclopaedia Britannica, Leo Tolstoy, conferida em 21 de setembro de 2026