Este ensaio fala do livro inteiro, até a última página. Se você ainda não chegou ao capítulo 12, guarde-o para depois.
No velório do capítulo 1, todo mundo representa. Os colegas fazem cara de pesar e contam promoções, a viúva chora e discute o preço da cova, o amigo briga com um pufe. Na saída, o criado que entrega o casaco diz a única frase honesta da noite: é a vontade de Deus, todos vamos chegar lá. Guerássim tem a posição mais baixa da casa e a fala mais exata do capítulo. O livro leva seis capítulos para explicar por quê.
Um camponês na cidade
Guerássim é o que o russo chama de mujique, um camponês, e trabalha na copa, ajudando o copeiro. O capítulo 7 o descreve como num retrato: jovem, limpo, de rosto fresco, engordado pela comida da cidade, vestido à maneira russa, com avental de cânhamo e camisa de algodão, cheirando ao alcatrão das botas e ao ar do inverno. Aprendeu com a gente da cidade a falar com os senhores, e fala: responde com o tratamento de respeito e com a sílaba de deferência que o russo da época colava ao fim das respostas.
Em 1861, a reforma de Alexandre II aboliu a servidão e libertou mais de 23 milhões de pessoas. Os servos domésticos ganharam só a liberdade, sem terra. Guerássim tem a barba começando a nascer em 1882; se tiver uns vinte anos, nasceu livre, e ainda assim o nome diz a posição dele. Na casa, os senhores têm nome e patronímico. Ele tem só o nome.
O trabalho que ninguém quer
No terceiro mês de doença, o corpo de Ivan Ilitch passa a precisar de ajuda para o que ninguém gosta de nomear. Tolstói não poupa o leitor: as necessidades do corpo viram um tormento, pela sujeira, pelo cheiro e pela vergonha de depender de outra pessoa. Quem vem limpar é Guerássim.
O que o capítulo 7 repara nele é o tato. Ele entra sem olhar para o doente, contendo a alegria de viver que lhe brilha no rosto, para não ofender quem está daquele jeito. Quando Ivan Ilitch pede desculpas pelo trabalho que dá, ele responde que não custa nada, que o patrão está doente. Não há piedade na resposta, nem nojo. Há um serviço bem-feito.
Depois vem a descoberta física que muda o livro. Ivan Ilitch sente menos dor com as pernas levantadas, e menos ainda quando Guerássim as segura. Pede que ele fique. Guerássim diz que só falta rachar a lenha do dia seguinte e que dá tempo, senta e segura. Daí em diante, às vezes a noite inteira, as pernas do juiz descansam nos ombros do camponês.
Antes de qualquer luz, o alívio do livro vem de dois ombros.
A casa que mente
O que mais atormenta Ivan Ilitch, diz o capítulo 7, não é a dor. É a mentira que todos aceitaram sem combinar: a de que ele está só doente e vai melhorar se seguir o tratamento. Ele tem vontade de gritar para que parem, e nunca grita. A mentira rebaixa a morte dele ao nível das visitas, das cortinas, do esturjão do jantar.
Guerássim é o único que não entra no jogo. Não esconde que sabe e tem pena, sem rodeio, do patrão magro e fraco. Numa noite em que Ivan Ilitch tenta mandá-lo dormir, ele responde que todos vão morrer, e que por isso não custa se dar ao trabalho. O narrador explica o que ele quer dizer: faz aquilo por um moribundo e espera que alguém faça o mesmo por ele quando chegar a vez. É um acordo entre mortais, não entre patrão e criado.
Há um detalhe que as traduções têm dificuldade de carregar. Guerássim trata o patrão por senhor, como deve. Numa dessas noites, o narrador registra que ele passa de repente ao tu, para dizer que doente é outra coisa, e que a um doente não custa servir. Nenhum outro criado trata Ivan Ilitch assim no livro. A intimidade escapa pela gramática, e o doente, que se ofende com a saúde de todos, não se ofende com a de Guerássim.
Quem leu primeiro
Em junho de 1886, no ano da publicação, o escritor Nikolai Leskov publicou o que as notas da edição de 1984 chamam de primeira análise impressa da novela, e o título dela fala do mujique da cozinha. Leskov lembrou uma ideia de Dostoiévski, a de que o senhor ainda teria de ir aprender com o camponês, e disse que Tolstói a realizou: o único consolo que o herói recebe antes de morrer é a compaixão de Guerássim.
Duas cenas sem diálogo
Guerássim quase não fala, e quando fala é curto. O que ele oferece é presença: os ombros, as mãos, a noite. No capítulo 9, Ivan Ilitch acorda de um pesadelo e o encontra no mesmo lugar, cochilando, com as pernas dele nos ombros. Pede que ele saia. Guerássim diz que pode ficar. Ivan Ilitch insiste, espera que ele passe para o quarto ao lado e só então chora como uma criança. O único que não mente é também o único diante de quem ele não se permite chorar.
No capítulo 11, olhando de noite o rosto adormecido de Guerássim, de maçãs salientes, Ivan Ilitch deixa entrar pela primeira vez a pergunta que vinha expulsando: e se a vida inteira não tiver sido o que devia? Ninguém disse nada a ele. O que dispara a pergunta é um rosto em paz ao lado de quem está morrendo.
No capítulo 12, Guerássim já não aparece, e o gesto passa a outra pessoa. O filho entra no quarto em silêncio, a mão do pai cai sobre a cabeça dele, ele a segura, beija e chora. Nenhuma palavra. É nesse instante que Ivan Ilitch vê a luz. Logo depois tenta falar, pedir perdão, e a palavra sai trocada; desiste de corrigir, certo de que quem precisava entender entenderia. As duas cenas de cuidado do livro, a do camponês e a do menino, são mudas. A única tentativa de dizer a coisa certa sai errada.
Uma objeção justa
Dá para desconfiar de Guerássim. Um conde escreve um camponês sem vontade própria, sempre disposto e contente, que passa a noite segurando as pernas do patrão e diz que dorme depois. O livro não mostra dele um pensamento que não seja bondade, e ninguém pergunta se ele queria estar ali.
Achamos que o livro sabe disso melhor do que parece. O conforto de Ivan Ilitch custa a noite de outra pessoa, e o texto não esconde a conta: a lenha por rachar, o sono adiado. Guerássim cuida porque é bom e porque é o trabalho dele, e a novela deixa as duas coisas juntas, sem escolher entre elas. É o que o impede de virar um santo de gesso.
O nosso guia do capítulo 1 termina com um conselho: guarde esse nome. Onze capítulos depois, o que Guerássim fazia sem dizer chega à família pelo gesto de um menino, e ele mesmo já não está no quarto.
Fontes
- Wikisource (russo), o texto original e as notas da edição de 1984, com a análise de Leskov, conferida em 21 de setembro de 2026
- Wikipédia (inglês), Emancipation reform of 1861, conferida em 21 de setembro de 2026
- Wikipédia (inglês), East Slavic name, sobre o patronímico, conferida em 21 de setembro de 2026