Quando publicou A Morte de Ivan Ilitch, em 1886, Tolstói já tinha escrito Guerra e Paz e Anna Kariênina. Tinha cinquenta e oito anos, fama mundial, terras, família numerosa e nenhuma necessidade de provar coisa alguma. Foi exatamente nesse ponto que ele decidiu que a própria obra anterior tinha sido um erro.
A crise começou alguns anos antes e está registrada num texto chamado Uma Confissão. A pergunta que o paralisou é simples e não tem resposta confortável: se tudo termina em morte, o que exatamente justifica qualquer coisa que se faça antes? Ele descreve ter escondido corda e espingarda de si mesmo para não ceder à tentação de acabar com aquilo.
Ele saiu da crise convertido a um cristianismo próprio, radical e bastante incômodo para todo mundo à volta dele.
A partir dali, passou a considerar os grandes romances um entretenimento de elite, escrito para uma classe que vivia do trabalho alheio. Quis abrir mão dos direitos autorais, o que gerou uma guerra doméstica com a esposa que durou décadas. Passou a defender a não violência de um jeito que influenciaria Gandhi. Acabou excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa.
O que isso muda na leitura
A Morte de Ivan Ilitch é a primeira ficção importante que ele escreve depois dessa virada, e dá para sentir. Não há panorama social, não há dezenas de personagens, não há batalhas. Há um homem, um quarto e uma consciência sob luz forte. O foco é estreito de propósito.
Isso explica também o desconforto que muitos leitores sentem nos últimos capítulos, quando o tom muda e a narrativa deixa de ser clínica. Há quem leia o desfecho como uma abertura genuína e comovente. Há quem o leia como um sermão que o autor impõe ao personagem. As duas leituras são defensáveis, e a discordância entre elas costuma render as melhores conversas sobre o livro.
Um detalhe biográfico fecha o círculo de maneira quase literária demais: em 1910, aos oitenta e dois anos, Tolstói fugiu de casa no meio da noite para viver como um homem simples. Morreu poucos dias depois numa estação ferroviária no meio do nada, cercado de jornalistas. O homem que escreveu sobre morrer mal passou a última parte da vida tentando não repetir o erro de Ivan Ilitch.