Este ensaio fala do fim do livro sem contá-lo: diz como o tom muda nos últimos capítulos, não o que acontece neles.
Quando A Morte de Ivan Ilitch saiu, em 1886, Tolstói já tinha escrito Guerra e Paz e Anna Kariênina. Tinha 57 anos, fama, terras e uma família numerosa. E estava convencido, havia alguns anos, de que a obra anterior tinha sido um erro.
Uma noite em Arzamas
Antes da crise houve uma noite. Em 1869, numa viagem de Níjni Nóvgorod a Penza, Tolstói dormiu numa hospedaria em Arzamas e foi tomado por um pavor de morrer sem causa nenhuma. Em 1884, nos anos em que trabalhava em Ivan Ilitch, pôs essa noite num conto inacabado que não publicou em vida, cujo título russo quer dizer Anotações de um louco. O narrador viaja para comprar barato as terras de um vendedor que ele julga tolo, de modo que a madeira da mata pague a compra. Para num quarto caiado e quadrado, de uma janela só, com uma cortininha vermelha, pergunta a si mesmo do que tem medo e ouve a morte responder que é dela, e que está ali.
Quem leu o capítulo 3 de Ivan Ilitch reconhece os dois elementos: a compra barata e a cortina. Dez anos depois de Arzamas, a crise virou livro. Está registrada em Uma Confissão, escrita entre 1879 e 1880. A censura da Igreja tirou o texto da revista que ia publicá-lo em 1882; ele saiu em Genebra em 1884 e, na Rússia, só em 1906. A pergunta que paralisou Tolstói é simples: se tudo termina em morte, o que justifica qualquer coisa que se faça antes? Ele conta que, sendo um homem feliz, escondia de si mesmo um cordão para não se enforcar na trave entre os armários do quarto, e deixou de caçar com espingarda para não ceder ao jeito mais fácil de acabar com tudo.
Saiu da crise com um cristianismo próprio, que a Igreja acabaria condenando.
Daí em diante, passou a ver os grandes romances como arte de elite, uma falsificação. Em O que é a arte?, concluído em 1897, pôs quase toda a própria obra na conta da arte ruim e salvou dois contos: Deus vê a verdade, mas espera e O prisioneiro do Cáucaso. Passou o patrimônio para a família e abriu mão dos direitos de propriedade literária, num casamento que os biógrafos contam entre os mais infelizes da história da literatura. Defendeu a não violência de um jeito que marcou Gandhi, com quem trocou cartas no último ano de vida. Em 1901, foi excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa.
Um presente de aniversário
A novela tem uma história doméstica que quase nunca se conta. Em 20 de agosto de 1885, Tolstói escreveu a um amigo que tinha voltado a trabalhar em A Morte de Ivan Ilitch e resumiu o plano: descrever a morte simples de um homem simples, vista de dentro dele. Deu também o motivo da pressa. O aniversário da mulher era no dia 22, a casa preparava presentes, e Sófia tinha pedido que ele terminasse aquilo para a nova edição das obras dele, que ela publicava. Ele queria fazer a surpresa também.
Não deu tempo. A novela saiu em 1886, na parte 12 das obras reunidas, e Tolstói ainda mexia nela nas provas: segundo as notas da edição russa de 1984, o capítulo 10 inteiro foi escrito na prova tipográfica. Achamos a ironia boa demais para deixar de fora. O livro sobre um homem que viveu para agradar aos outros nasceu, em parte, para agradar à mulher do autor.
O modelo foi um homem real. Ivan Ilitch Métchnikov, procurador do tribunal de Tula, morreu em 1881, aos 45 anos, e os pensamentos dele no leito, sobre uma vida que não tinha dado fruto, chegaram a Tolstói pela cunhada, que os ouviu da viúva. O irmão do procurador, o biólogo Ilia Métchnikov, escreveu em 1915 que Tolstói tinha dado a melhor descrição do medo da morte.
O que isso muda na leitura
A Morte de Ivan Ilitch foi escrita logo depois dessa virada, e dá para sentir. Não há panorama social, não há dezenas de personagens, não há batalhas. Há um homem, um quarto e uma consciência sob luz forte. O foco é estreito de propósito.
Mas o livro não é um sermão do começo ao fim. O capítulo 1 é sátira de costumes; o 2 e o 3 resumem vinte anos de carreira quase como contabilidade. E o romancista que Tolstói dizia renegar está inteiro no capítulo 3, no inventário do apartamento novo: os damascos, o ébano, as flores, os tapetes e os bronzes que todo mundo de certa renda compra para parecer rico, e que por isso deixam todo mundo parecido.
E a noite de Arzamas volta, virada do avesso. No capítulo 9, sozinho de madrugada, Ivan Ilitch ouve uma voz que não é som, a voz da alma, perguntar o que ele quer. Não sofrer, responde. Viver. Em Arzamas era a morte que respondia à pergunta do homem; aqui é o homem que responde, e a pergunta seguinte da voz é como viver.
Isso ajuda a entender o desconforto que muitos leitores sentem nos últimos capítulos, quando a narrativa deixa de ser clínica. Há quem leia o desfecho como uma abertura verdadeira. Há quem o leia como um sermão que o autor impõe ao personagem. As duas leituras se sustentam no texto, e a discordância entre elas costuma render as melhores conversas sobre o livro.
Os primeiros leitores já sentiam isso. O pintor Ivan Kramskói, autor de um retrato conhecido de Tolstói, escreveu numa carta de setembro de 1886 que a novela deixava de ser arte e virava pura criação, um conto bíblico, sem nenhum enfeite. Pela régua de O que é a arte?, onze anos depois, a própria novela ficaria do lado da arte ruim, já que não está entre as duas exceções. Achamos que a régua estava errada, e este livro é a prova.
O fim da vida dele parece escrito por ele. Na madrugada de 10 de novembro de 1910, aos 82 anos, Tolstói saiu escondido de Iásnaia Poliana, acompanhado só do médico, depois de ouvir Sófia revirar o escritório atrás do testamento. No trem, pegou uma pneumonia. Morreu dez dias depois, na casa do chefe da estação de Astápovo. Achamos difícil não ver ali o homem que escreveu sobre morrer mal tentando não repetir o erro de Ivan Ilitch.
Fontes
- Wikisource (russo), o texto original e as notas da edição de 1984: a carta de 20 de agosto de 1885, as provas de 1886, a primeira publicação, Métchnikov e Kramskói, conferida em 22 de setembro de 2026
- Wikipédia (inglês), Confession (Leo Tolstoy), sobre as datas, a censura e a edição de Genebra, conferida em 22 de setembro de 2026
- Wikipédia (russo), Толстой, Лев Николаевич: o cordão e a espingarda, o patrimônio e os direitos, a saída de Iásnaia Poliana e Astápovo, conferida em 22 de setembro de 2026
- Wikisource (russo), Записки сумасшедшего, o conto de 1884 sobre a noite em Arzamas, conferida em 22 de setembro de 2026
- Wikipédia (russo), Записки сумасшедшего (Толстой), sobre a data, a publicação em 1912 e a viagem de 1869, conferida em 22 de setembro de 2026
- Wikipédia (inglês), What Is Art?, sobre a própria obra como arte ruim e as duas exceções, conferida em 22 de setembro de 2026
- Wikipédia (inglês), Leo Tolstoy, sobre os romances renegados, Gandhi, a excomunhão de 1901 e a morte, conferida em 22 de setembro de 2026
- Wikipédia (inglês), Sophia Tolstaya, sobre o casamento e o testamento, conferida em 22 de setembro de 2026
- Wikipédia (russo), Толстая, Софья Андреевна, sobre as edições das obras que ela publicava, conferida em 22 de setembro de 2026
- Wikipédia (inglês), The Death of Ivan Ilyich, escrita logo depois da conversão, conferida em 22 de setembro de 2026