Este ensaio passa pelo livro inteiro e cita cenas até o capítulo 11, sem contar a última página. Quem prefere chegar a elas sem aviso pode ler antes os capítulos 1 a 4 e voltar depois.
Em 1886, Tolstói publicou uma história curta sobre um homem que não fez nada de errado. O crítico Vladímir Stássov escreveu ao autor em abril daquele ano falando em setenta páginas; nas edições brasileiras que trazem só a novela, são de 96 a 112. Ivan Ilitch estudou na escola que devia, aceitou o primeiro posto que o pai arranjou, casou-se com a moça que a boa sociedade aprovava, alugou o apartamento adequado e cuidou pessoalmente das cortinas. Morreu aos 45 anos sem ter tomado uma decisão que fosse inteiramente dele.
A novela não guarda suspense. O título entrega o fim, e o capítulo 1 entrega o resto: os colegas de tribunal leem a notícia no jornal e, antes de qualquer tristeza, pensam nas transferências e promoções que a vaga vai abrir. No velório, Schwartz faz sinal a Piotr Ivánovitch para combinar o carteado da noite, e Piotr ainda chega a tempo do fim da primeira partida. Não há vilania nisso. É o que as pessoas pensam, escrito sem disfarce.
O que assusta em Ivan Ilitch não é a morte. É o inventário que a morte obriga a fazer.
Uma medalha na corrente do relógio
Um detalhe do capítulo 2 costuma passar batido. Ao sair da Escola de Jurisprudência, com o dinheiro que o pai deu para o enxoval, Ivan Ilitch encomenda roupas no alfaiate da moda, janta com os colegas num restaurante caro e pendura na corrente do relógio uma medalhinha com a inscrição latina respice finem: olhe para o fim. É o enfeite de um rapaz elegante, e o livro nunca mais fala dele. Quem faz o que a frase manda é a própria novela, que começa pelo fim.
O mesmo capítulo abre com a frase que resume a trajetória: a vida de Ivan Ilitch foi das mais simples, das mais comuns e das mais terríveis. As três coisas ao mesmo tempo, e a terceira por causa das duas primeiras. O terror não está num acontecimento. Está na soma.
Há outro detalhe do mesmo tipo, poucas linhas antes da medalha. Na escola, Ivan Ilitch fez coisas que, na hora, lhe davam nojo de si mesmo. Depois viu gente bem colocada fazer igual sem achar ruim, e não passou a achá-las boas: simplesmente as esqueceu. É o método da vida inteira. O critério do certo não é a consciência dele, é a aprovação de quem está acima.
Uma queda de escada
O que derruba Ivan Ilitch não é guerra, paixão nem traição. No capítulo 3, promovido e instalado num apartamento novo, ele se ocupa tanto da decoração que, nas sessões do tribunal, se distrai pensando se as cortinas devem cair retas ou franzidas. Um dia sobe numa escadinha para mostrar ao tapeceiro, que não entendia, como queria o drapeado. Escorrega, se segura como o homem forte e ágil que é, e só bate o lado do corpo no puxador da janela.
A pancada dói e passa. Ele escreve à família, que ainda não tinha se mudado, que se sente quinze anos mais moço. Só no capítulo 4 aparecem um gosto estranho na boca e um incômodo do lado esquerdo da barriga, que ninguém na casa chama de doença.
É uma escolha deliberada. Tolstói poderia ter dado ao personagem uma doença com peso simbólico. Deu uma escadinha, um tapeceiro que não entendia e uma cortina. O apartamento que era a prova de que tudo tinha dado certo é o lugar da queda.
No capítulo 6, é ele quem faz a conta. Entra na sala que decorou, acha um risco na mesa envernizada, arruma um álbum, discute com a mulher onde pôr os móveis. Basta ela dizer que ele vai se machucar de novo para o incômodo do lado voltar ao centro. Ele pensa então que foi ali, naquela cortina, que perdeu a vida, como quem cai no assalto a uma fortaleza, e acha isso horrível e estúpido. A imagem é de guerra, e a batalha foi a arrumação da sala.
Todo mundo mente, menos o criado
Já no capítulo 4, o médico discute rim flutuante e apêndice e desvia da única pergunta que Ivan Ilitch faz, se o caso é perigoso. Daí em diante, a novela vira um estudo sobre mentira educada. A mulher administra a doença como um inconveniente de agenda. Os colegas visitam e mudam de assunto. Todos concordam, sem combinar, em fingir que aquilo vai passar.
A exceção é Guerássim, o jovem camponês da copa que, no capítulo 7, passa a ajudar o patrão nas necessidades mais humilhantes e não finge nada. Não oferece cura nem consolo. Oferece a verdade e a companhia de quem não tem pressa.
Qualquer pessoa que já acompanhou um parente doente reconhece a cena. A literatura russa do século 19 costuma parecer distante por causa dos nomes e dos títulos de nobreza. Esta novela não tem esse problema. O quarto do doente é o mesmo em 1886 e hoje.
Por que agora
A pergunta que interessa não é por que o livro é bom. Isso ele é há 140 anos. É por que ele chegou, em setembro de 2026, ao primeiro lugar entre os mais vendidos da Amazon no Brasil, duas semanas depois de uma resenha em vídeo no YouTube que passou de 565 mil visualizações.
Uma resposta possível: a novela é curta, não exige conhecimento prévio e trata de um assunto que não depende de repertório. Ninguém precisa saber quem foi Tolstói para entender um homem com medo de ter desperdiçado a própria vida. É um dos raros clássicos que não pedem licença.
A outra resposta é menos literária. Ivan Ilitch fez tudo o que mandaram fazer. Trabalhou, subiu, comprou, decorou. A pergunta que o derruba no capítulo 11, e se a vida correta que construí tiver sido a errada, muita gente faz sozinha, de madrugada, e raramente em voz alta. Achamos que um livro de cem páginas que a formula sem rodeio circula melhor do que qualquer campanha de incentivo à leitura.
O país em que isso aconteceu é o da sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em novembro de 2024: 53% dos entrevistados não tinham lido nem parte de um livro nos três meses anteriores, a primeira vez na série histórica em que quem não lê é maioria. Foi nesse país que uma novela russa de 1886 chegou ao primeiro lugar, sem política pública nenhuma, porque alguém falou dela com entusiasmo e quem ouviu foi atrás.
É pouco para reverter uma estatística. É muito para duas semanas.
Fontes
- Wikisource (russo), o texto original e as notas da edição de 1984, com a carta de Stássov, conferida em 22 de setembro de 2026
- Qual edição ler, a nossa comparação de seis edições brasileiras, com as fontes de cada linha, conferida em 22 de setembro de 2026
- CNN Brasil, seção Pop, 17 de setembro de 2026: a resenha, as visualizações e o primeiro lugar na Amazon, conferida em 22 de setembro de 2026
- Instituto Pró-Livro, Retratos da Leitura no Brasil, 6ª edição, divulgada em 19 de novembro de 2024, conferida em 22 de setembro de 2026