Em 1886, Tolstói publicou uma história de pouco mais de cem páginas sobre um homem que não fez nada de errado. Ivan Ilitch estudou o que devia estudar, passou nos concursos que devia passar, casou-se com a mulher que era conveniente casar, alugou o apartamento adequado e escolheu pessoalmente o tecido das cortinas. Morreu aos quarenta e cinco anos sem nunca ter tomado uma decisão que fosse inteiramente dele.
A novela não guarda suspense nenhum. O título entrega o fim, e o primeiro capítulo entrega o resto: colegas de tribunal recebem a notícia da morte e, antes de qualquer tristeza, calculam quem vai herdar o cargo e quanto isso significa de aumento. Um deles calcula também quanto tempo precisa ficar no velório para cumprir a obrigação e ainda chegar a tempo do jogo de cartas. Não há vilania nisso. É só o que as pessoas realmente pensam.
O que assusta em Ivan Ilitch não é a morte. É o inventário que a morte obriga a fazer.
Tolstói resume a trajetória do personagem numa frase que é provavelmente a mais citada do livro: a vida dele foi das mais simples, das mais comuns, e das mais terríveis. As três coisas ao mesmo tempo, e a terceira por causa das duas primeiras. O terror não está num acontecimento. Está na soma.
A queda mais banal da literatura
O que derruba Ivan Ilitch não é uma guerra, uma paixão ou uma traição. É uma queda de escada enquanto ele ajusta uma cortina no apartamento novo. Ele bate o lado do corpo no puxador da janela, ri, levanta e segue em frente. A dor que começa ali não passa mais.
É uma escolha deliberada e cruel. Tolstói poderia ter dado ao personagem uma doença com peso simbólico. Deu-lhe um acidente doméstico durante a decoração da casa que representava a vida bem-sucedida. O apartamento que era a prova de que tudo tinha dado certo é o que o mata.
Todo mundo mente, menos o criado
A partir do meio do livro, a novela vira um estudo sobre mentira educada. Os médicos falam em termos técnicos precisos e evitam a única pergunta que interessa. A esposa administra a doença como um inconveniente de agenda. Os colegas visitam e mudam de assunto. Todos concordam, sem combinar, em fingir que aquilo vai passar.
A exceção é Guerássim, o criado jovem que ajuda Ivan Ilitch nas necessidades mais humilhantes e trata a situação pelo nome. Ele não oferece cura nem consolo. Oferece a verdade, e a companhia física de alguém que não está com pressa. É o único personagem que o moribundo suporta, e o livro é bastante claro sobre o motivo: é o único que não está mentindo.
Qualquer pessoa que já acompanhou um parente doente reconhece a cena. A literatura russa do século 19 costuma parecer distante por causa dos nomes e dos títulos de nobreza. Esta novela não tem esse problema. O quarto do doente é o mesmo em 1886 e hoje.
Por que agora
A pergunta mais interessante não é por que o livro é bom. Ele é bom há cento e quarenta anos. A pergunta é por que dezenas de milhares de brasileiros decidiram lê-lo na mesma semana de setembro de 2026, depois de um jogador de futebol comentá-lo num canal que até pouco tempo era sobre skate e cubo mágico.
Uma resposta possível: a novela é curta, não exige nenhum conhecimento prévio e trata de um assunto que não depende de repertório. Ninguém precisa saber quem foi Tolstói para entender um homem com medo de ter desperdiçado a própria vida. É um dos raros clássicos que não pede licença.
A outra resposta é menos literária. Ivan Ilitch fez tudo o que mandaram fazer. Trabalhou, subiu, comprou, decorou. A pergunta que o derruba no fim, e se a vida correta que construí tiver sido a errada, é uma pergunta que muita gente faz sozinha, de madrugada, e raramente em voz alta. Um livro de cem páginas que a formula de maneira direta tem mais chance de circular do que qualquer campanha de incentivo à leitura.
Vale lembrar o contexto: a sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil apontou que 53% dos brasileiros não leram nenhum livro no período pesquisado, a primeira vez em que os não leitores superaram os leitores. Foi nesse país que uma novela russa de 1886 chegou ao primeiro lugar em vendas. Não por causa de uma política pública, mas porque alguém em quem as pessoas confiam falou dela com entusiasmo honesto.
É pouco para reverter uma estatística. É muito para uma semana.