O que acontece
Num intervalo de audiência, colegas de tribunal leem no jornal que Ivan Ilitch Golovin morreu. A primeira reação de quase todos é fazer contas: quem sobe de cargo, quem pode ser transferido, quem ganha com a vaga. Só depois vem a obrigação social, meio aborrecida, de ir ao velório e visitar a viúva.
Piotr Ivánovitch, colega de faculdade do morto, vai. Na casa encontra Schwarz, outro colega, que já combina o carteado da noite; a viúva, Praskóvia Fiódorovna, que o leva para uma conversa sobre como conseguir mais dinheiro do governo; e Guerássim, o criado jovem, o único que fala da morte com naturalidade. Piotr sai de lá e ainda chega a tempo do jogo de cartas.
Repare em
- O pufe de molas rebeldes onde Piotr tenta se sentar com dignidade enquanto a viúva fala. Tolstói transforma o luto num problema de mobília.
- O rosto do morto. O narrador vê nele a expressão de quem fez o que era preciso, e fez direito, e também uma espécie de advertência aos vivos. Piotr decide que a advertência não é com ele.
- Quando a viúva conta que o marido gritou sem parar nos últimos três dias, Piotr sente horror, e logo se acalma pensando que aquilo aconteceu com Ivan Ilitch, não com ele.
O momento
Na saída, Guerássim entrega o casaco a Piotr e comenta, sem drama nenhum, que é a vontade de Deus e que todo mundo vai chegar lá. É a primeira frase honesta do livro, dita pela pessoa de menor posição na casa. Guarde esse nome.