O que acontece
Ivan Ilitch sabe que está morrendo e vive em desespero. Lembra do silogismo que aprendeu na escola, no manual de lógica de Kiesewetter: Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal. Sempre achou o raciocínio correto, para Caio. Mas ele não é Caio, um homem em abstrato. É Vânia, o menino que teve mãe, pai, irmãos, brinquedos, uma bola de couro listrada.
Tenta voltar à rotina para afastar o pensamento. Vai ao tribunal, preside audiências, e no meio do trabalho a dor volta, e com ela a presença que o texto chama apenas de "ela". Procura biombos, distrações que escondam a morte por um momento, e elas funcionam cada vez menos.
Repare em
- As lembranças de infância que ele opõe ao silogismo: o cheiro da bola de couro, a seda do vestido da mãe. É a primeira vez que a infância aparece como a parte viva da vida dele.
- A palavra biombo. Tudo o que ele usa para se distrair, do trabalho à arrumação da sala, é descrito como uma tela posta na frente da morte.
- O arranhão na mesa da sala e os álbuns fora do lugar. Ele se irrita com a família por coisas mínimas, porque são as únicas que ainda consegue controlar.
O momento
Na sala que decorou com tanto cuidado, Ivan Ilitch lembra que foi ali, pendurando a cortina, que se machucou. E pensa que perdeu a vida por causa de uma cortina, como alguém que morre tomando uma fortaleza. É a ironia do capítulo 3 voltando, agora sem graça nenhuma.