O que acontece
Mais duas semanas. Ivan Ilitch já não sai do sofá e passa o tempo virado para a parede, sozinho com duas perguntas: o que é isto, é mesmo a morte? E por que tanto sofrimento?
As lembranças da infância chegam em cadeia, puxadas por coisas pequenas: o gosto das ameixas secas que comia quando menino leva a outras cenas, e cada uma parece mais viva do que qualquer coisa da vida adulta. Ele passa a ver a própria vida como uma série de sofrimentos cada vez maiores, correndo cada vez mais depressa para o fim.
Repare em
- A parede. O capítulo é quase imóvel: um homem deitado de costas para o mundo.
- A proporção inversa que ele descobre: quanto mais para trás na vida, mais luz; quanto mais perto do presente, mais escuro.
- Ele volta a considerar que talvez não tenha vivido como devia, e de novo recusa a ideia lembrando o quanto foi correto. A defesa ainda funciona. Por pouco.
O momento
A imagem da pedra que cai com velocidade crescente. É física de escola aplicada a uma vida: cada etapa mais curta, mais rápida e mais dolorosa. Ele sente que resistir é impossível, e o que o atormenta não é só o fim, é não entender para que serve tudo aquilo.