O que acontece
Um dia comum de doença, contado da manhã à noite. O criado Piotr abre as cortinas e oferece chá. O médico chega do frio bem-disposto, esfrega as mãos e examina o paciente com uma seriedade de palco. A mulher entra e o repreende por não seguir o tratamento, como se a culpa fosse dele.
À noite, a família vai ao teatro ver Sarah Bernhardt. A mulher, a filha em vestido de festa e o noivo dela passam pelo quarto antes de sair, falam da peça e caem num silêncio que ninguém consegue quebrar. Só o filho adolescente olha para o pai com alguma coisa parecida com pena.
Repare em
- O médico que chega esfregando as mãos: a doença do outro é, para ele, um compromisso de agenda cumprido com bom humor profissional.
- A queixa da mulher de que ele não segue o tratamento. Ela transforma a doença numa falha de disciplina, o que a deixa do lado certo.
- O silêncio antes da saída para o teatro. Todos sabem, ninguém diz, e o constrangimento vira uma cena inteira.
O momento
O olhar do filho. Numa sala cheia de gente arrumada para sair, o menino é o único que não está representando. É a segunda pessoa, depois de Guerássim, que enxerga Ivan Ilitch de verdade. Guarde esse olhar.