O que acontece
1880 é o pior ano da vida dele. Um colega fica com o posto que Ivan Ilitch esperava, o dinheiro não fecha, ele se sente injustiçado. Vai a São Petersburgo atrás de qualquer cargo que pague mais, e a sorte muda de repente: uma troca de nomes no ministério põe um conhecido numa posição de influência, e Ivan Ilitch volta nomeado para um posto acima dos antigos colegas, com salário bem maior.
Ele se muda antes da família e monta sozinho o apartamento novo, com uma dedicação quase de artista: móveis antigos, bronzes, cortinas. Numa dessas tarefas, sobe na escada para mostrar ao estofador como pendurar uma cortina, escorrega e bate o flanco no puxador da janela. Dói, passa, e a vida volta a ser leve, agradável e decente. A filha arranja um pretendente.
Repare em
- O apartamento que ele acha único é, diz o narrador, igual ao de todas as pessoas que não são ricas mas querem parecer ricas.
- A regra de trabalho que ele aperfeiçoa: tratar cada caso só pelo lado formal e deixar do lado de fora tudo o que for humano.
- O carteado. O jogo de cartas aparece como o lugar onde ele é mais feliz. Ele vai voltar, e de outro jeito.
O momento
A queda. É um acidente doméstico, quase cômico, e o texto passa por ele depressa, com uma contusão que dói e depois some. Quem já sabe o fim percebe o que Ivan Ilitch não percebe: o golpe veio justamente enquanto ele cuidava da coisa que mais lhe dava orgulho.