O que acontece
A partir daquela resposta começam os gritos, e eles duram três dias. Ivan Ilitch se debate como alguém empurrado para dentro de um saco preto por uma força que não se vê, e não consegue passar para o outro lado porque ainda se agarra à ideia de que viveu bem.
No fim do terceiro dia, o filho entra no quarto em silêncio, segura a mão do pai, beija e chora. Nesse instante Ivan Ilitch atravessa o saco e vê uma luz. Entende que a vida não foi o que devia, mas que isso ainda pode ser corrigido. Sente pena do filho, sente pena da mulher, e quer poupá-los. Tenta pedir perdão, a palavra sai errada, e ele desiste de corrigir: quem precisava entender entenderia.
Repare em
- O saco preto. Uma imagem de passagem estreita, quase de parto, algo que só se atravessa largando o que se carrega.
- O filho. O gesto mais simples do livro, uma criança beijando a mão do pai, é o que destrava o final.
- O erro de palavra. Em russo, ele quer dizer prosti, "perdoa", e diz propusti, algo como "deixa passar". Cada tradução resolve isso de um jeito, e vale comparar a sua.
O momento
O fim. Alguém ao lado da cama diz que acabou, e Ivan Ilitch repete para si que quem acabou foi a morte, que ela não existe mais. Em vez da morte há luz. Para ele, tudo acontece num instante; para quem está no quarto, a agonia ainda dura duas horas. O livro termina com os dois tempos lado a lado.