O que acontece
Uma mulher entra em Eatonville ao pôr do sol, a pé, de macacão sujo, com o cabelo comprido balançando até a cintura, e passa pela varanda onde os vizinhos se juntam no fim do dia. Eles a conhecem. Ela saiu da cidade de vestido de cetim, ao lado de um homem bem mais novo, e volta sozinha. A varanda comenta: os homens olham o corpo dela, as mulheres torcem para que ela tenha perdido o dinheiro e o rapaz. Janie passa sem parar, e o silêncio dela vira mais um assunto.
Pheoby Watson, a melhor amiga, defende Janie diante das outras e vai levar um prato de comida para ela. Encontra Janie nos fundos da casa, com os pés cansados de molho. As duas riem das fofoqueiras. Pheoby pergunta o que todos querem saber, se o rapaz levou o dinheiro dela, e Janie diz que não: Tea Cake não está mais com ela, e ela voltou porque já não conseguia ser feliz nos Everglades, onde os dois viviam. Como Pheoby não entende, Janie começa a contar desde o começo.
Repare em
- A abertura. Antes de Janie aparecer, o narrador compara os sonhos dos homens a navios no horizonte, que chegam ou não chegam, e diz que as mulheres fazem outra coisa com os sonhos: vivem como se eles fossem a verdade. Guarde a palavra horizonte. Ela volta.
- A varanda. Os vizinhos passam o dia trabalhando para os outros e só ao entardecer, sentados, têm voz de novo. Usam essa voz para julgar quem passa. O livro começa com a cidade falando de Janie antes que ela diga uma palavra.
- Duas línguas na mesma página. O narrador escreve num inglês cheio de imagens; os vizinhos, Pheoby e Janie falam na língua de Eatonville, que Hurston escreve como se fala. A tradução brasileira passa essas falas para um português coloquial, fora da norma. Leia em voz alta: o ouvido entende antes do olho.
O momento
Janie com os pés de molho, dizendo à amiga que foi até o horizonte e voltou. A cidade queria um julgamento na varanda; Janie escolhe uma conversa nos fundos da casa, com uma ouvinte só. O romance inteiro é essa conversa, e quem lê está sentado no lugar de Pheoby.