O que acontece
A loja vira o centro de Eatonville, e a varanda dela, o palco: os homens passam o fim da tarde contando histórias exageradas, e a preferida é a da mula magra e maltratada de Matt Bonner. Janie adora ouvir, mas Joe não a deixa sentar lá fora, porque a mulher do prefeito não se mistura, e a faz trabalhar de pano na cabeça, porque tem ciúme de quem olha o cabelo dela. Um dia a mula foge, os homens a cercam para atormentá-la, Janie resmunga contra a crueldade, e Joe, que ouviu, compra o bicho por cinco dólares para deixá-lo descansar. Janie faz um pequeno discurso elogiando o gesto, e um dos homens diz que ela nasceu para falar em público.
A mula engorda solta pela cidade e morre, e Eatonville lhe dá um enterro de brincadeira, com discurso e tudo, ao qual Janie é proibida de ir; depois, os urubus descem. Na varanda, dois homens discutem a sério se é a natureza ou a cautela que impede alguém de pôr a mão no fogão quente, e Janie se diverte até Joe mandá-la de volta ao balcão. Joe a humilha por um pé de porco em conserva que não aparece e, sete anos depois do casamento, dá um tapa nela por um jantar malfeito. Janie passa a guardar por dentro o que pensa e a mostrar por fora só o respeito calado que ele exige. No fim do capítulo, quando os homens riem de uma mulher que pediu carne para os filhos famintos, ela fala: eles não sabem das mulheres tanto quanto pensam.
Repare em
- Quem faz o discurso. No capítulo 5, Joe proibiu Janie de discursar. No 6, ela discursa sem pedir licença, para elogiar o próprio Joe, e a varanda descobre que ela sabe falar.
- A mula. Babá disse que a mulher negra é a mula do mundo, e Logan quis comprar uma mula para Janie arar. Agora é Janie quem tem pena de uma mula cansada e surrada, e Joe compra o animal para exibir a própria bondade. O livro não explica a ligação. Nem precisa.
- O fogão quente. A discussão da varanda parece só piada, e é um retrato. Hurston estudou antropologia e recolheu histórias como essas no Sul dos Estados Unidos; aqui ela põe na página o jeito de conversar daquela gente como quem registra uma arte.
O momento
O tapa. Janie não chora nem vai embora. Decide manter por fora o respeito calado que Joe exige e guardar por dentro o que pensa e o que sonha. A partir daqui, ela vive em dois lugares ao mesmo tempo, e é essa Janie que atravessa os capítulos seguintes.